A dupla Juan José Campanella (direção) e Ricardo Darín (atuação), que tanto sucesso conquistou com O Filho da Noiva, está de volta em O Segredo dos Seus Olhos, drama romântico-policial que deu à Argentina mais uma indicação ao Oscar de Filme Estrangeiro.
Co-produzido com a Espanha, O Segredo dos Seus Olhos teve também nove indicaçõ ... Leia mais A dupla Juan José Campanella (direção) e Ricardo Darín (atuação), que tanto sucesso conquistou com O Filho da Noiva, está de volta em O Segredo dos Seus Olhos, drama romântico-policial que deu à Argentina mais uma indicação ao Oscar de Filme Estrangeiro.
Co-produzido com a Espanha, O Segredo dos Seus Olhos teve também nove indicações ao Goya e venceu nada menos que 12 prêmios da Academia espanhola. Ele é, aliás, o grande sucesso de bilheteria do país hermano desde os anos 80, vendendo em torno de 3 milhões de ingressos. Nada mau para um país que tem 1/5 da população brasileira.
Números à parte, é um filmão! Darín interpreta Benjamin, oficial de justiça aposentado que pretende escrever um livro sobre um antigo caso de assassinato que ele mesmo investigou e nunca lhe saiu da cabeça. Para isso, ele procura a amiga e colega Irene (Soledad Villamil), sua chefe na época do caso, que continua na ativa. A partir deste reencontro, voltam à tona intensas e sofridas emoções que pareciam estar definitivamente enterradas no passado, mas que ainda estão mais vivas do que se poderia imaginar.
Esqueça os clichês daquilo que imaginamos que possa ser um filme argentino. Nada de tangos dançados em cabarés esfumaçados, nem presos políticos desaparecidos na época da ditadura. Nada de Mães na Plaza de Mayo e... sim, ok.. um pouco de futebol vai bem...
Baseado no livro homônimo de Eduardo Sacheri, O Segredo de Seus Olhos é um policial fortemente influenciado pelo noir americano dos anos 40, felizmente sem cair nas sofríveis armadilhas de estilo que o próprio Darín caiu em O Sinal, sua única incursão até aqui pela direção cinematográfica, que também flertava com o mesmo gênero. Os personagens são riquissimamente construídos, com nuances críveis e dimensões humanas. Assim como os antigos filmes de Humphrey Bogart, ninguém é totalmente herói, ninguém é totalmente vilão. São apenas pessoas em busca de seus sonhos e aspirações, cada um com seus limites – ou não – de ética e moral, cada um com suas motivações maiores ou menores que levam a atos igualmente maiores ou menores.
Tudo isso numa história regada a paixões sufocadas pelo tempo e – por incrível que possa parecer – boas doses de um humor refinado que serve como uma eficiente válvula de escape dentro de uma temática tão tensa. A conexão Passado/ Presente, tão cara à cultura argentina, tem como ponto de intersecção a Paixão. Por uma mulher, por um caso policial, pela justiça pela vida ou até por um time de futebol. Mas é a Paixão irracional e incondicional, acima de tudo, que faz o motor da História girar.
Tecnicamente impecável, com uma fotografia densa e misteriosa, o filme também merece destaque pela atuação precisa de todo o seu elenco. E com uma curiosidade: Guillermo Francella, no belo e patético papel de Sandoval, é um conhecido comediante argentino, aqui atuando num registro mais dramático.
A empolgante cena do Estádio do Racing já virou antológica.
Há que se tomar cuidado com os filmes médios. É fácil abraçar o que de acordo com nosso gosto pessoal se apresenta como um indiscutível grande filme, ou repudiar o que nos parece uma bomba irremediável. O meio-termo sem dúvida também sempre deve existir, e não há mal nenhum em apreciá-lo, entretanto, o que mais tem infestado o cinema co ... Leia mais Há que se tomar cuidado com os filmes médios. É fácil abraçar o que de acordo com nosso gosto pessoal se apresenta como um indiscutível grande filme, ou repudiar o que nos parece uma bomba irremediável. O meio-termo sem dúvida também sempre deve existir, e não há mal nenhum em apreciá-lo, entretanto, o que mais tem infestado o cinema contemporâneo é o filme médio que se passa por grande arte, a poesia enlatada nas telas, mal pensados dramaturgicamente e repleto de truques, mas que no seu conjunto atende ao perfil de um público mais sofisticado, que cansados do excesso de filmes ruins pode cair em enganações e derivações de todos os tipos. Algo que pode atingir a qualquer um de nós, em qualquer etapa de nossa cinefilia. Pode ocorrer amanhã ou depois, ou estar acontecendo neste momento, nunca se sabe.
O Segredo dos Seus Olhos é uma obra que quer ser grande, e o consegue vez por outra, porém o filme de Juan José Campanella (O Filho da Noiva, Clube da Lua) não escapa da camisa-de-força dos excessos brilharescos que tem marcado o recente cinema argentino. A cena de abertura é sintomática: a câmera trêmula e fora de foco ao som de uma trilha bem sentimental acompanhando uma mulher correndo atrás de um trem, e sua figura, até então enorme (de acordo com as palavras do protagonista), ficando cada vez menor e diminuta, até desaparecer. É apenas uma sequência, e abre também o romance que o oficial de justiça aposentado Benjamin Espósito (Ricardo Darin) há anos vem tentando escrever, acerca de suas experiências entorno da investigação de um crime hediondo envolvendo um estupro/assassinato ocorrido em Buenos Aires em 1974. À medida que o inquérito progride, encontra-se o criminoso, porém descobrimos que por trás de tudo existem outras revelações e diferentes camadas tendo como pano de fundo uma crítica velada ao governo da então presidente Isabel Perón.
Não é sempre que Campanella consegue ir muito além das boas intenções. Em alguns momentos o filme arranca sorrisos amarelos, como na cena em que os investigadores invadem clandestinamente uma casa à procura de provas e são surpreendidos pelo cachorrinho da dona da casa que chega na hora, com o cãozinho correndo e latindo em direção aos oficiais, que se obrigam a disparar fugindo com o rabo entre as pernas. A sequência no estádio de futebol também não funciona como deveria por causa dos exageros de câmera, e também é prejudicada por uma desnecessária e longa conversa sobre futebol argentino dos anos sessenta que antecede a perseguição no estádio. Quanto mais o filme avança, percebe-se uma queda de fôlego na direção, e as recorrentes idas e vindas no tempo mais embaraçam e atrapalham o filme ao invés de ajudá-lo, além de uma óbvia impressão de esquematismo, principalmente na meia hora final, depois que O Segredo dos Seus Olhos parece ter esgotado o assunto. Ainda que sem apelar para discursos e elucubrações políticas, o diretor insiste nesse último ato em aludir aos abusos cometidos pelo governo da época contra os opositores, o que reforça ainda mais a fluidez claudicante da obra. É louvável que na vida real o povo argentino tenha a necessidade de purgar as manchas do seu recente passado histórico julgando e condenando os seus antigos déspotas ainda vivos, mas no cinema a obsessão pelos períodos dos regimes ditatoriais latino-americanos é um filão que cansou há muito tempo.
O grande trunfo de O Segredo dos Seus Olhos é o seu elenco, especialmente o ótimo Ricardo Darin como o personagem central. Trata-se de uma performance melancólica que confere o tom ao filme, no papel de um sujeito que passou a vida como sabendo que se lhe reserva um destino medíocre. O seu Benjamin Espósito em dado momento se pergunta: “Como se faz para viver uma vida vazia?” ou a variante “Como se faz para viver uma vida cheia de “nada”?”. A força e o interesse do filme até certo ponto residem na relação que Benjamin desenvolve com a sua chefe, a juíza Irene Menéndez Hastings (Soledad Villamil), que aos seus olhos parece intocável e vinda de outro mundo, uma mulher forte e elegante que guarda o seu melhor sorriso apenas para o noivo poderoso com quem está comprometida. É um dos casais mais improváveis do cinema recente, o que justamente por isso resulta em um curto-circuito em todas as vezes que ambos os personagens contracenam, sublinhando a paixão desesperançada de Benjamin pela colega de trabalho. A maioria das cenas no fórum desnudam a formalidade de ambientes e funcionários rígidos e austeros. Por sinal, Irene é dona de um dos melhores momentos do filme de Campanella, no interrogatório com o principal suspeito do assassinato, em que ela humilha e manipula o acusado. Enquanto Irene se mostra inatingível ao interesse romântico de seu subordinado, a trama desfruta de certa credibilidade. Mas o rumo que o desenvolvimento da relação toma perto do desfecho não é muito convincente, enfraquecendo ainda mais o resultado final de um filme repleto de bons elementos, mas desengonçado em sua totalidade.
Apesar da produção caprichada e da presença muito interessante da atriz Soledad Villamil ao lado de um Ricardo Darín rotineiro (eficiente, mas o de sempre e mais recentemente quase sem modulações), O Segredo dos seus Olhos peca ao tentar atirar em tantas direções.
O eixo central une um mistério criminal e a obsessão de um homem no sent ... Leia mais Apesar da produção caprichada e da presença muito interessante da atriz Soledad Villamil ao lado de um Ricardo Darín rotineiro (eficiente, mas o de sempre e mais recentemente quase sem modulações), O Segredo dos seus Olhos peca ao tentar atirar em tantas direções.
O eixo central une um mistério criminal e a obsessão de um homem no sentido de tentar desmascarar um assassino, não deixando impune uma violência bárbara. O tema lembra o de uma sombria história de Friedrich Dürrenmatt que já foi levada às telas cinco vezes desde 1958, a última em 2001 (A Promessa, dirigido por Sean Penn).
Mas o roteiro do diretor Juan José Campanella (O Filho da Noiva) e de Eduardo Sacheri, autor do romance original, salta muito rapidamente de um estupro seguido de morte para passagens cômicas a cargo de um personagem interpretado por Guillermo Francella. Soa quase imoral.
Outra ideia interessante era a do acobertamento de psicopatas a serviço de governos repressores da liberdade e da democracia, tal como a Argentina viveu tantas vezes durante tantos anos. Mas isso também não é levado adiante.
Por fim, um romance de difícil concretização ganha a mesma importância como gancho de suspense (vai acontecer ou não?) que a questão detetivesca.
Ao atenuar os aspectos mais densos do enredo, o filme deixa a impressão de covardia para enfrentar ou para desenvolver o que tinha de melhor nas situações de base da história, certamente pretendendo seduzir as plateias com a ênfase em lances de humor e romance, De fato, o filme foi o maior êxito de bilheteria em 2009 na Argentina, tendo levado três milhões de espectadores ao cinema; e pela segunda vez o diretor (e co-roteirista, além de responsável pela montagem) Juan J. Campanella (de O Filho da Noiva) entra na disputa do Oscar de filme em língua não-inglesa, além de ter tido várias indicações ao prêmio Goya na Espanha e levado alguns. Pode-se deduzir deste tipo de receptividade que tudo de sério e responsável que havia como gancho inicial do enredo foi mesmo transformado em diversão palatável, embalada para consumo e distração, ainda que com a duração um pouco superior a 120 minutos. Mais do que "o segredo dos seus olhos", este pode ser o "segredo" de certos sucessos.
Excelente
Um belissimo filme, que mereceu o Oscar e que nos mostra a grande sensibilidade de Campanella na direcao. Nos ultimos anos a producao de filmes argentinos tem nos brindado com obras bem estruturadas e sempre com uma preocupacao importante com a fotografia.