Nine

Nine
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Sinopse

O cineasta Guido Contini luta para ter harmonia em sua vida pessoal e profissional, às voltas com sua esposa, sua amante e sua mãe. Baseado no musical Nine, por sua vez inspirado no filme 8½, de Federico Fellini.

Dados técnicos

Gênero Musical, Romance
Título Original Nine
Diretor Rob Marshall
Atores principais Penelope Cruz, Nicole Kidman, Kate Hudson, Marion Cotillard, Sophia Loren, Daniel Day-Lewis, Judi Dench, Stacy Ferguson
Ano de produção 2009
Duração 118 minutos.
Escritor Michael Tolkin
País Estados Unidos da América
Avaliação da comunidade
Média da avaliação: 2.99
Avaliação média baseada em 318 pessoas
Avaliação da mídia
Média da avaliação: 2.36
Avaliação média baseada em 11 críticos
Última modificação jev233 (2 anos atrás)

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Crítica especializada

Pipoca Combo - E. Carneiro (Brasil)

3.00
Bom

Nine é, antes de tudo, um musical. Primeiramente, preciso fazer uma confissão: eu odeio musicais. Nunca fui muito fã de filmes onde a ação era interrompida aleatoriamente para alguém soltar a voz e fazer um número de dança sem existir nenhum contexto para isso. Salvo alguns filmes da Carmen Miranda e do Fred Astaire, sempre considerei music ... Leia mais Nine é, antes de tudo, um musical. Primeiramente, preciso fazer uma confissão: eu odeio musicais. Nunca fui muito fã de filmes onde a ação era interrompida aleatoriamente para alguém soltar a voz e fazer um número de dança sem existir nenhum contexto para isso. Salvo alguns filmes da Carmen Miranda e do Fred Astaire, sempre considerei musicais como um gênero chatíssimo.

Achei interessante quando soube que o diretor de Nine seria o Rob Marshall que, apesar de só ter feito dois filmes (Chicago, de 2002, e Memórias de uma Gueixa, de 2005), foi muito bem na direção do primeiro e soube transformar vários números musicais em um longa. Além do diretor, o que também chamou a atenção foi a quantidade de estrelas premiadas que faziam parte do projeto e, por fim, a peça e o filme no qual ela foi baseada.

Nine é proveniente de um musical de sucesso da Broadway que, por sua vez, é fruto do filme 8 ½, do diretor Federico Fellini. Para poder entender não só o nome do filme como todo o universo ao qual ele remete, é preciso prestar atenção à um fato: a produção de Fellini assim se chama porque, antes de dirigi-lo, o cineasta já tinha feito 6 filmes, 2 curtas metragens (que juntos valeriam como sendo 1 longa) e co-dirigido outro (o que valeria como meio filme); somando tudo, se tem os 8 ½ . O filme, que trazia Marcello Mastroianni no papel do cineasta Guido Anselmi e Claudia Cardinale como a também Claudia, ganhou 2 Oscar (Filme Estrangeiro e Figurino), 13 prêmios de Melhor Filme em festivais pelo mundo e depois disso entrou em quase todas as listas de 10 maiores filmes de todos os tempos. A história – que vale a pena pincelar aqui – mostrava a agonia e a crise existencial de um diretor que, perto das filmagens, ainda não tinha um roteiro para por em prática. Fellini dava toques de surrealismo ao filme, fazendo o Guido sofrer de alucinações e lembranças da infância enquanto é pressionado por todos.

19 anos se passaram até que Maury Yeston , um famoso compositor de musicais da Broadway, pegou o 8 ½, adicionou números musicais e o transformou no 9. Nine foi um sucesso, ganhou 6 prêmios Tony além de versões mundo afora (a versão argentina é considerada a melhor de todas) e teve uma segunda versão americana com Antônio Banderas no papel de Guido.

Bem, o que se esperar de um musical? A resposta obvia seria “números musicais”. Pelo o que se pode constar, parece que alguns números do musical original foram cortadps, ao mesmo tempo em que outras canções foram compostas somente para o filme, como “Cinema Italiano”, executada por Kate Hudson. Como é de se esperar, o resultado das canções é irregular, desde a fraca “Chiclete” até a ótima “Take it all”, cantada pela ótima Marion Cotillard.

As sequências musicais, ao menos, são muito bem feitas. Rob Marshall se mostra experiente no assunto. Com sabedoria, usa os cenários, aproveita muito bem os recursos da câmera e procura montar suas cenas numa espécie de palco, deixando tudo mais simples, o que coloca tais passagens num nível de excelente produção. Os problemas aparecem no restante do filme.

O roteiro escrito por Anthony Minghella (O Paciente Inglês) e Michael Tolkin (Impacto Profundo) é ótimo na abordagem de questões que remetem às mesmas do filme original. Nine trata desde o relacionamento humano (Guido, sua esposa e suas amantes), até questões que eram sempre presentes na obra de Fellini, como o poderio da igreja católica romana na cultura italiana, lembranças da infância, a mídia e a cultura dos paparazzi , a mulher, a política e o senso de beleza italianos.

O ponto mais fraco talvez seja a direção do Rob Marshall justamente fora das cantorias. Guido é um personagem complexo, Daniel Day Lewis está perfeito como tal e, mesmo assim, parece que o filme não tem a capacidade de buscar esta complexidade que o personagem carrega. Das atrizes, Marion Cotillard está perfeita e dá um show, seguida por Penélope Cruz que, como o personagem manda, esbanja sensualidade, e também Judi Dench, que está muito bem no seu posto; fora o bom grado de matarmos a saudade de Sophia Loren, que aparece bem, mas em poucas cenas.

Não é surpresa perceber que os atores europeus se saíram melhores. Pode parecer piada, mas o filme é muito americano para o que se propõe. Desde a menção aos lendários estúdios da cinecittà às questões que dizem respeito à mulher e à sociedade, o filme aborda de uma maneira bastante americanizada. O adultério, por exemplo, é tratada do famoso jeito americano no cinema: algo imperdoável que nunca pode acontecer e resolvido na base do drama, onde as mulheres dão ataques e os homens ficam esgotados – bem diferente da maneira como os cineastas italianos abordam, discutindo desde o que é o amor até o fracasso, possível volta do relacionamento e até mesmo relações onde o casal não se importa com o tema. As crises de criatividade de Guido poderiam render ótimas cenas, mas Hollywood, que (também) passa por uma tremenda crise de criatividade sem fim (vide as incansáveis continuações e adaptações) simplesmente ignora. A mulher do cinema italiano varia desde a femme fatale até mulheres comuns. Fellini adorava dar vez a moças gordas de seios fartos nos seus filmes e Saraghina era feia e ao mesmo tempo sensual… Ao contrario da Ferggie, que segue o estereótipo de mulher norte-americana.

No fim, o filme que diz ser uma homenagem à Itália na verdade não passa de um desfile de clichês italianos com um recheio americano.

Cineclick - Heitor Augusto (Brasil)

2.00
Regular

Nine nasceu fadado à inferioridade, posto que é inspirado em 8 ½, de Federico Fellini, mas é dirigido por Rob Marshall. Tudo muito bonito, visual, movimentado, pintado, maquiado, mas oco. Puramente oco.

A principal razão é que o diretor norte-americano apostou no espetáculo (ah, coisas que só a Broadway faz por você) e se esqueceu do ci ... Leia mais Nine nasceu fadado à inferioridade, posto que é inspirado em 8 ½, de Federico Fellini, mas é dirigido por Rob Marshall. Tudo muito bonito, visual, movimentado, pintado, maquiado, mas oco. Puramente oco.

A principal razão é que o diretor norte-americano apostou no espetáculo (ah, coisas que só a Broadway faz por você) e se esqueceu do cinema. Aquele diretor cheio de medo e angústias (Marcello Mastroiani no filme original) virou um parasita que, por mero detalhe, é cineasta, mas perde boa parte de seu tempo administrando sete mulheres.

Guido Contini, o tal diretor em crise criativa, só não é um desastre porque é interpretado por Daniel Day-Lewis (Sangue Negro). Sua rotina é perder-se com a mulher (Marion Cotillard), a amante (Penélope Cruz), a mãe (Sophia Loren), a musa (Nicole Kidman), a figurinista fiel (Judi Dench), a primeira prostituta (Fergie) e a jornalista sedutora (Kate Hudson).

O que Nine se apropria de maneira decente do universo felliniano é o onírico, o sonho, o imaginário. O roteiro, escrito por Michael Tolkin e Anthony Minghella, embaralha o passado e o presente, o real e o imaginário, a verdade e a fantasia. Guido é adulto e criança, tudo ao mesmo tempo, em um universo desorganizado.

Porém, Rob Marshall erra feio ao inserir glamour e luxo a esse mundo, um corpo estranho a Fellini. Reflexo de tempos que colocam o espetáculo em primeiro lugar, gesto que o cinema norte-americano domina como nenhum. O circo não é mais lugar de palhaços, mas de ridículos.

Fergie berra “seja italiano”. Mas, o que é ser italiano? Andar com passos marcados, berrar, usar plumas, vestir um vermelho sedutor? E Kate Hudson desfilando em uma passarela com uma saia curta brilhante aos cantos de “eu amo o cinema italiano”? O que achariam De Sica, Pasolini, Visconti, Tornatore e Damiani sobre o que é o cinema italiano na visão de Marshall?

Claro que as sequências musicais são animadas, com dezenas de extras, movimentos arrojados de câmera e boa performance musical das atrizes/cantoras. Mas não são inseridas organicamente à trama. Elas dizem o estado dos personagens, mas não são fundamentais para acompanharmos o desenvolvimento de Nine. Falha do roteiro: Marshall dirige cenas espalhafatosas, mas esquece de amarrá-las em função da trama e não atirá-las só como um momento de diversão.

Se Rob Marshall não tivesse filiado seu filme a 8 ½, seria um musical do estilo Marshall, ou seja, competente. Conectar sua superprodução a Fellini é pedir que todas suas limitações como diretor de cinema (não como coreógrafo) sejam explicitadas quadro a quadro.

Cine Players - R. Cunha (Brasil)

2.00
Regular

Depois de Rob Marshall ter dirigido o premiado Chicago, criou-se um alvoroço em torno de Nine, seu próximo musical estrelado por alguns dos maiores nomes da Hollywood recente. Releitura do clássico 8½ de Fellini, deve-se deixar bem claro que esta referência é uma das poucas coisas que Nine tem de bom, e ao utilizar uma boa história já conta ... Leia mais Depois de Rob Marshall ter dirigido o premiado Chicago, criou-se um alvoroço em torno de Nine, seu próximo musical estrelado por alguns dos maiores nomes da Hollywood recente. Releitura do clássico 8½ de Fellini, deve-se deixar bem claro que esta referência é uma das poucas coisas que Nine tem de bom, e ao utilizar uma boa história já contada e piorá-la inserindo musicais fracos, sem inspiração, monótonos e nem um pouco marcantes, torna-se uma obra totalmente dispensável. Para se ter uma noção da gravidade da coisa, a melhor canção deste musical é uma música clássica que nem foi feita para o filme, e a canção que deveria ser tema, também chamada Nine, acabou sendo excluída antes do corte final.

A história de Nine confunde-se com sua própria produção: tendo seu roteiro sido interrompido pela greve de roteiristas, Rob Marshall parece muito com Guido, seu personagem principal. Ambos têm a responsabilidade de carregar uma grande produção à frente, mas parecem não saber muito bem como e nem o que fazer. Guido foi considerado certa vez uma grande promessa na Itália, com seus primeiros filmes fazendo imenso sucesso. Porém, o que é retratado no filme é a fase ruim do cineasta que, sem idéias para seus novos trabalhos, começa a filmar sem roteiros e dependendo de uma equipe fiel que tenta captar suas idéias soltas e fazer algo sem planejamento, torcendo para Guido gostar e usar em seus filmes, mesmo não tendo nenhuma idéia pré-estabelecida, seja nos figurinos, nos cenários, nas canções etc.

Esta confusão na criatividade de Guido reflete-se também em sua vida pessoal: casado com Luisa Contini, uma ex-estrela que abriu mão da fama e do sucesso para viver ao lado do diretor, Guido vive um eterno dilema com a monogamia, já que é louco por mulheres e tem inclusive uma amante fixa, Carla Albanese. Só que Guido realmente ama Luisa, e tenta mudar e ser mais fiel à esposa, mas será que ainda há esperança nessa relação, desgastada ao longo dos anos?

Nine não tem nem um pouco do romantismo trágico de Moulin Rouge - Amor em Vermelho e Rob Marshall não está aos pés de Federico Fellini. Então, mesmo que a história seja a mesma, não há porquê deixar o clássico de lado para ver esta releitura, já que o material original é bem melhor. E se Nine falha nesse sentido, os números musicais podem fazer tudo valer a pena, certo? Errado.

Apostando em seus números musicais para tentar diferenciar, Rob Marshall mais uma vez dá uma de Guido e demonstra estar com problemas de criatividade: 80% dos musicais do filme são passados no mesmo lugar, nos estúdios da Cinecittá, onde o filme de Guido deve ser rodado. Óbvio que, no conceito, a idéia é válida, afinal, aqueles estúdios representam o mundo de Guido; ali dentro, ele é o rei supremo, o universo, o Deus, e aquele cenário é a única coisa que ele tem de concreto do filme. Só que será que, na execução, apenas mudando luzes e atrizes, o resultado pode ser considerado positivo?

E já que falamos delas, nada mais justo do que traçar um paralelo entre as beldades escolhidas a dedo e seus números musicais: Luisa Contini é interpretada por Marion Cotillard, a eterna Piaf, uma das poucas que fazem um trabalho realmente bom no longa. Sofrida por saber das infidelidades de seu marido, mas ainda assim ter esperança de salvar o casamento, ela vive em semi-depressão por ter largado uma carreira promissora para viver a vida terrível que vem levando, sem a reciprocidade do marido. Já Penélope Cruz, que interpreta a amante Carla Albanese, novamente demonstra habilidade ao criar uma figura ao mesmo tempo cômica e trágica, pois sabe que vive de ilusões e que, por isso, nunca será feliz por completo, mesmo com a camada de sensualidade que praticamente esconde toda essa tristeza.

Kate Hudson participa no possível único número que presta, e que não é por menos que foi escolhido como carro chefe para a divulgação do longa-metragem. Ela interpreta Stephanie, uma repórter que fará de tudo para descobrir os detalhes e o porquê de tanto segredo em torno da próxima obra de Guido. Judi Dench vê todo o seu talento desperdiçado em um musical sem graça e uma personagem que é praticamente uma segunda mãe para Guido, nada além disso. Já Sophia Loren parece mais ser uma homenagem a ela mesma do que uma personagem realmente necessária ao filme, fora que seu musical é bastante constrangedor e suas participações desnecessárias perante a formação do homem que Guido se tornou. E Fergie, apesar de linda, sem dúvidas está lá apenas para fazer número e tornar-se o motivo do pecado na vida do nosso "pobre" diretor.

Todas essas atrizes fazem seus musicais no mesmo já citado cenário, mudando apenas luzes e figuração. Acredite: além de não terem boas letras e coreografias, falham ao não terem um pingo de energia, algo que Chicago esbanjava de sobra, para não ir muito longe em exemplos. E se Nicole Kidman faz o único musical vivido no mundo real, é óbvia também que esta escolha foi feita mais em homenagem à Fellini e sua fonte de A Doce Vida do que como uma cena realmente necessária, faltando apenas Kidman entrar na água. E mesmo sem fazer isso, disputa de forma acirrada com Sophia Loren o prêmio de pior apresentação.

E finalmente chegamos a Daniel Day-Lewis: possivelmente o melhor ator de sua geração e oscarizado recentemente por seu trabalho memorável em Sangue Negro, ele se esforça para alcançar uma tridimensionalidade em Guido, que por si só já é admirável, mas o papel é limitado a um mulherengo com bloqueio e que, do jeito que foi construído, não é possível perceber o porquê de tanto alarde em torno daquele homem. Se não consegue administrar nem a própria vida, como quer comandar uma produção gigantesca e milionária? Já que não conseguimos nos apegar a sua causa, ao seu drama, como poderemos torcer por ele? Guido sabe que não pode. Para fechar o caixão, seu número solo também é terrível, não diferenciando muito do casting feminino.

Nine é um lenga-lenga praticamente insuportável, girando em torno desse homem, que tenta, a todo custo, voltar ao sucesso, tanto na vida profissional quanto na pessoal. Mas sua previsibilidade é tão grande que, mesmo tentando disfarçar nome, amante ou enganar produtores, o resultado é sempre previsível e conhecido por todos. Assim como Nine, que se sustenta muito mais em homenagens, aparências e nomes do que em algo original e de qualidade, pois quando tenta fazer algo por essa linha, falha vergonhosamente.

Criticos.com - Nelson Hoineff (Brasil)

Nine é um musical baseado em Fellini 8 ½. Abraça, portanto, dois universos. O do cinema musical e, naturalmente, o de 8 ½. Para pensá-lo – ou, bem antes disso – para apreciá-lo, é bom que se reflita por um minuto sobre o que o gerou.

Se todo o cinema tivesse que ser resumido a um criador, não tenho dúvida que seria Federico Fellini. ... Leia mais Nine é um musical baseado em Fellini 8 ½. Abraça, portanto, dois universos. O do cinema musical e, naturalmente, o de 8 ½. Para pensá-lo – ou, bem antes disso – para apreciá-lo, é bom que se reflita por um minuto sobre o que o gerou.

Se todo o cinema tivesse que ser resumido a um criador, não tenho dúvida que seria Federico Fellini. Se todos os filmes tivessem que ser concentrados em um só, eu votaria em 8 ½. Realizado em 1963, expressa as duvidas de um artista que não tem o que dizer, mas sintetiza as grandes questões – existenciais, éticas, afetivas – do ser humano. Como muitos outros filmes de Fellini, é uma obra em permanente renovação. Sua apreensão depende a cada instante do repertório do espectador. Vi 8½ seguramente mais de 40 vezes – e cada uma é literalmente a primeira - porque o filme teima em se debruçar sobre o repertório que incorporei.

O diálogo de 8 ½ com seu espectador não pode ser comparado, em riqueza, ao que esse espectador será capaz de ter, em vida, com qualquer pessoa. É uma conversa densa, persistente, definitiva. Quando Guido vai ao Cardeal para lhe dizer que não é feliz, é recebido com uma pergunta: - E quem lhe disse que você veio ao mundo para ser feliz? - Isso é o que justifica a arte, o que a diferencia do passatempo. Um criador como Fellini é capaz de estabelecer patamares enriquecedores de diálogo com sua platéia. Não imagino muitas outras maneiras de generosidade com o ser humano.

8 ½ em si não é um musical – mas, como lembrou Roger Ebert, todos os filmes de Fellini são musicais. Não apenas por causa das trilhas de Nino Rota – sem cuja música o cinema de Fellini perderia a tridimensionalidade, seria outro bem menos grandioso – mas porque Fellini dirigia seus atores sob música – música produzida justamente para isso, para que os atores fellinianos a sentissem, sem necessariamente acompanhar seus ritmos, seus compassos ou suas melodias. Muitos críticos enxergam no western o gênero cinematográfico por excelência. Divido isso com o musical, embora o gênero já estivesse nos palcos muito antes da invenção do cinema. Mas nas telas a magia dos musicais não se ampara apenas nas extraordinárias trilhas de Rodgers, Hammerstein, Porter, Herb Brown, mas também na relação de criadores como Berkeley, Donen, Kelly, Fosse, Minnelli com a parafernália cinematográfica.

Nine consegue o que parecia impossível: banalizar o musical e banalizar 8 ½. Seria razoável se o filme simplesmente não funcionasse, talvez não falasse com um público em especial. Mas não há qualquer indício de que tal filme tenha sido feito para atingir quem quer que seja. Trata-se de um mero insulto ao legado de Fellini e à capacidade de pensar do ser humano. Um desfile de personagens dignos de piedade, mais que desprezo. Perto de Nine, o Big Brother Brasil é a Ilíada

Como um simples musical, Nine é surpreendentemente medíocre, mesmo se comparado às bobagens de Rob Marshall em Chicago, com o qual Nine tem em comum o reducionismo formal. O filme caminha pela via mais simples: da constrangedora coreografia de festa infantil, à divisão compartimentada dos números musicais entre os astros escalados para participar de um embuste barato.

Pouca coisa, porém, se compara à vulgarização do roteiro. Em Nine, todos se comportam como vendedores de Times Square se dirigindo aos turistas. Somos chamados de “Mister” o filme inteiro, tratados como consumidores idiotas comprando miniaturas da Estátua da Liberdade.

Seria mais fácil esboçar um roteiro sobre, digamos, um amor furtivo na Piazza Navona. Usar 8 ½ como base, eleva o filme do ruim para o grotesco. Extrapola a estreiteza de visão de um diretor, chega ao limite do palatável.

Noites de Cabíria se transformou, pelas mãos de Bob Fosse, em Sweet Charity, um musical renovador que tem, entre seus muitos méritos, o de inaugurar um modelo de edição no gênero, interferente sobre a encenação, que é praticado até hoje. Sweet Charity, realizado seis anos depois de 8 ½, foi escrito por Ennio Flaiano que também escreveu, com Tullio Pinelli, Cabiria e 8 ½, entre muitos outros filmes comandados por Fellini.

Flaiano sabia o que estava fazendo, o que definitivamente não é o caso de Rob Marshall nem do time de autores (Michael Tolkin, Anthony Minghella, entre outros) que escreveram Nine. Escalar Daniel Day Lewis para o Guido que foi construído para Marcello Mastroianni beira a insanidade. Lewis se parece mais com uma Tartaruga Ninja do que com um intelectual atormentado pela perda da inspiração. Duvido que Marshall tenha se dado ao trabalho de ver 8 ½ uma única vez (e se viu é ainda pior porque não foi capaz de entender um simples gesto, um mero olhar de Mastroianni), assim como tenho certeza que Guy Ritchie jamais se deu ao trabalho de ler uma mera historia de Conan Doyle, ou não teria colocado Robert Downey Jr. no papel de Sherlock Holmes, talvez um dos mais assustadores miscasting da história recente do cinema ocidental.

Ver uma boa atriz como Marion Cotillard vagando como um fantasma pela alma de Giulietta Massina é uma experiência assombrosa, mas isso não para por aqui. Lembro, em Julieta dos Espíritos, os fantasmas de Massina insistindo em atormentá-la e acho que eles simplesmente ganharam massa.

Num musical espera-se música, mas após duas intermináveis horas de projeção, desafio qualquer espectador a cantarolar uma música sequer do filme, coisa que eu não me atreveria num comercial de 15 segundos de refrigerante. Já a coreografia, amparada pelas caras e bocas que Marshall convence suas vinte celebridades a fazer incessantemente, situa-se entre o medíocre e o ridículo. Vi Penélope Cruz, Nicole Kidman, Judi Dench e até Sophia Loren como se fossem participantes de A Fazenda. Senti calafrios de vergonha praticamente a cada número.

Se fosse eu o Cardeal, daria a cada espectador a penitência: ver Fellini e Kelly pelo menos uma vez. Nine continuaria ruim, mas teria servido para alguma coisa.

Comentários

Jana.Pompeu comentou:

Nine

1.500
"Regular(-)"

"Não gostei do roteiro. Mesmo."

4 meses atrás ·  Sin votos · Este comentário foi útil?  Sim   Não  · Responder
mah.cello avaliou:

Excelente

Kate Hudson está perfeita!!!
OMG... Penélope Cruz é muito sexy!!!
I love his cinema italiano!!!

um ano atrás ·  Sin votos · Este comentário foi útil?  Sim   Não  · Responder
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