Se você gosta de animação provavelmente já viu ou pelo menos ouviu falar em Adam Elliot. Em 2004, o roteirista, animador e diretor ganhou o Oscar de Melhor Curta de animação por Harvie Krumpet. Exibida no Anima Mundi do mesmo ano, a história do solitário e desajustado imigrante polonês foi agraciada com o prêmio de Melhor Filme escolhido ... Leia mais Se você gosta de animação provavelmente já viu ou pelo menos ouviu falar em Adam Elliot. Em 2004, o roteirista, animador e diretor ganhou o Oscar de Melhor Curta de animação por Harvie Krumpet. Exibida no Anima Mundi do mesmo ano, a história do solitário e desajustado imigrante polonês foi agraciada com o prêmio de Melhor Filme escolhido pelo público brasileiro.
Antes do Oscar, o australiano realizou a trilogia Uncle (1996), Cousin (1998) e Brother (1999) - respectivamente Tio, Primo e Irmão – enquanto estudava na Victorian College of the Arts em Melbourne.
Não é necessário conhecer os curtas para se encantar com Mary e Max – Uma Amizade Diferente, o primeiro longa-metragem do diretor. Mas se você tiver curiosidade, assista e entenderá que, para chegar neste filme Elliot, percorreu um caminho de descoberta e investigação do humano através do que ele mesmo define como clayography, neologismo entre clay - como é chamado entre os animadores o material do qual os bonecos de massinha são feitos - e biografia.
Mary (quando criança a voz é de Bethany Whitmore, na idade adulta, Toni Collette) é uma menina australiana de oito anos. Max (Philip Seymour Hoffman) é um judeu novaiorquino quarentão. Nenhum dos dois se encaixa muito bem no ambiente em que vivem, são solitários e o mundo lhes parece intrigante e incompreensível.
O diretor opta por uma narrativa divida em blocos, na qual apresenta os personagens separados, une-os quando as cartas começam a ser trocadas e marca o tempo que passa. Narrativa simples, mas, no começo, tem ritmo irregular. Mas, através da sensibilidade de Adam Elliot em criar o mundo de Mary e Max, sempre separados e descobrindo o outro à distância, somos imersos em reflexões sobre o quanto o ordinário da vida pode ser incrível quando se dá atenção aos detalhes.
Após assistir ao filme, fiquei ainda mais curiosa em saber que a trama é baseada em fatos reais. Imaginava se tratar de um romance, mas na verdade, o diretor usou sua própria experiência (com licenças poéticas e criativas) e de um amigo com o qual se correspondeu por muitos anos.
A animação permite usar metáforas divertidas e exagerar traços de personalidades para expressar sentimentos sem palavras, com singularidade, além de misturar a personalidade de seus protagonistas nos minuciosos cenários. Mary e Max – Uma Amizade demonstra o quanto o acúmulo das experiências nas narrativas curtas podem desenvolver o olhar e os tempos para contar uma história de fôlego.
Outra coisa legal de se ressaltar é a importância de uma animação para adultos chegar às salas comerciais de cinema.
Mary & Max (Mary and Max, 2009), animação longa-metragem de stop-motion escrita e dirigida por Adam Elliot, é uma exploração de improbabilidades. O filme tem em sua premissa uma chance ínfima e acaba ele mesmo um em um milhão: uma produção com personagens de massinha que resulta absolutamente tocante.
Depressivo no tom e no visual (seri ... Leia mais Mary & Max (Mary and Max, 2009), animação longa-metragem de stop-motion escrita e dirigida por Adam Elliot, é uma exploração de improbabilidades. O filme tem em sua premissa uma chance ínfima e acaba ele mesmo um em um milhão: uma produção com personagens de massinha que resulta absolutamente tocante.
Depressivo no tom e no visual (seria mais sensato chamá-lo de desenho "desanimado", já que muito pouco efetivamente acontece na tela), o filme acompanha dois personagens solitários, cujas vidas se cruzam pelo maior dos acasos: uma página aleatória aberta em uma lista telefônica. Motivada por uma dúvida infantil, a australiana Mary Daisy Dinkle, 8 anos, decide escrever ao nova-iorquino Max Jerry Horowitz, 44 anos. Junto à carta, alguns desenhos, uma barra de chocolate e a dúvida: "de onde vêm os bebês nos Estados Unidos". A correspondência inocente muda a vida de ambos para sempre, iniciando uma história que transcorre por mais de uma década.
A direção de arte é inspiradora. Elliot, dono de um Oscar de curta animado (Harvie Krumpet, 2003), opta por protagonistas caricatos e quase malfeitos de tão simples. Os cenários são muito mais ricos - a Austrália e seus tons terrosos contrastando com a cinzenta Nova York. É tudo proposital. Enquanto uma Pixar capricha em seus personagens principais por dentro e por fora, o animador se arrisca em recheá-los de dor e dúvida, sem uma superfície fofinha e cativante.
Com o palco montado, inicia-se uma longa e verborrágica discussão filosófica sobre religião, vida em sociedade, sexo, amor, confiança e, principalmente, a importância e o significado da amizade. As cartas também refletem a caótica estrutura racional de remetente e destinatário, sempre com um monotonia instigante. Ideias brilhantes ("se ao menos houvesse uma equação matemática para o amor") surgem e são abandonadas em função de outra melhor, mais inocente ou simplesmente irrelevante.
Apesar de tratar de um tema quase extinto, os "pen pals", amigos de correspondência, algo bastante comum poucas décadas atrás, Mary & Max encontra reflexo curioso na modernidade de redes sociais e programas de mensagens instantâneas. Memórias de amigos virtuais não se apagam mais queimando-se as cartas... mas nos blocks e deletes de perfil.
Toni Collette (Pequena Miss Sunshine) dubla Mary e Philip Seymour Hoffman (Capote) empresta uma irreconhecível voz a Max. O personagem, aliás, é do tipo que o ator oscarizado aprecia. Mas falar mais sobre ele arruinaria algumas surpresas. Fique com a certeza que os personagens podem ser de massinha, mas o suor e as lágrimas que eles vertem são assustadoramente reais e perturbadores.
Tex Avery, grande animador da primeira metade do século passado que fez carreira em estúdios como Warner e MGM, considerava a animação o melhor gênero de se trabalhar por conta das grandes possibilidades que ela permitia de se explorar o imaginário, o onírico, desprender-se da realidade e buscar refúgio em um mundo novo. Adam Elliot é segu ... Leia mais Tex Avery, grande animador da primeira metade do século passado que fez carreira em estúdios como Warner e MGM, considerava a animação o melhor gênero de se trabalhar por conta das grandes possibilidades que ela permitia de se explorar o imaginário, o onírico, desprender-se da realidade e buscar refúgio em um mundo novo. Adam Elliot é seguramente um realizador mais pessimista que Avery, o que faz desta primeira animação do australiano quase uma antítese de suas teorias criativas, mesmo que se perceba diversos traços herdados do estilo inconfundível do criador de clássicos como Who Killed Who? (minha provável animação favorita, embora seja um curta-metragem).
Mary e Max - Uma Amizade Diferente traz, acima de tudo, uma percepção impressionante sobre um mundo que, embora tenha evoluído tecnologicamente, mantém em sua essência algumas características que parecem difíceis de serem rompidas, sentimentos que soam intrínsecos ao ser humano independente da concepção de grupo que se desenvolva. Em tempos de internet, mensagens instantâneas e telefones celulares que nos permitem comunicação cristalina entre dois pontos tão distintos do mundo, é curioso – e doloroso – constatar que muitas vezes, mesmo tão inseridos, o que precisamos é do contato certo, e que nestes momentos ele pode estar muito distante, ainda inacessível.
É por esta experiência que passam Mary e Max, que em outra época protagonizam exatamente aquilo que muitos de nós, usuários da internet, mantemos hoje em dia: uma amizade exclusivamente dependente de meios de comunicação inumanos. No caso nosso, o meio virtual; no deles, as correspondências em papel. Mary, garota australiana solitária que sofre com a ausência do pai e os excessos da mãe alcoólatra, escolhe aleatoriamente um nome em uma lista telefônica pertencente a um país distante, os Estados Unidos, e por coincidência ou conspiração conhece, através da troca de cartas, Max, um senhor solitário, sem amigos ou namoradas, que sofre de retardo mental e possui um estilo de vida anti-social, assim como o dela.
Essa amizade acaba se tornando uma grande jornada de compreensão, um do outro, de si mesmos, da vida e do mundo que os cerca, mesmo que distorcido por suas visões quase alienígenas das coisas. Jornada que é marcada por observações peculiares e que mostram em Elliot, que aqui assina roteiro, direção e criação visual, um autor ousado e dotado de um olhar ao mesmo tempo desolador e sarcástico sobre esta realidade que pinta, especialmente por conta dos exageros sempre conotativos da estética que constrói com sua habilidosa técnica de stop motion com argila. Das caricaturas físicas dos personagens e objetos às composição particulares de cada uma dos países retratados – Austrália a terra do sépia; Estados Unidos, a do preto-e-branco – existem momentos de imensa criatividade e audácia.
Através desses detalhes e de coincidências obviamente improváveis, características, aí sim, da animação tradicional, Elliot joga no ventilador diversos temas como solidão, insegurança, amizade, necessidade e perdão em uma animação que abandona por definitivo o campo desenvolvido por Avery e outros produtores como Walt Disney – e, em menor escala, seus herdeiros da Pixar. Por falar em Pixar, a presença de algumas discussões mais sérias pode ser notada nos últimos filmes do estúdio, mas o que Eliot promove é um verdadeiro tour de force de submersão indigesta em discussões polêmicas e que, através de seu humor negro e da incrível coragem ao despir-se deste humor em certos momentos para atingir um grau quase visceral de sinceridade, resultam em um filme ao mesmo tempo divertido e depressivo, pessimista e otimista, capaz de explorar o componente humano como poucos filmes com atores de carne e osso lançados nos últimos tempos foram capazes.
Ao contrário de um Von Trier, porém, Elliot evita polarizar sua carga emocional em um só extremo, fazendo deste um filme que emociona de formas distintas, tanto na alegria quanto na tristeza de seus personagens. E não poderia ser mais justo pois, afinal, esta nada mais é do que a gangorra em que brincamos dia a dia.
Mary e Max – Uma Amizade diferente é um elaborado filme de animação com desenvolvimento temático adulto, utilizando bonequinhos de massa que ganham impressão de movimento pelo processo conhecido como stop-motion: cada fotograma corresponde a um quadro, devendo ser fotografados em torno de 24 quadros por segundo para dar a sensação ótica a ... Leia mais Mary e Max – Uma Amizade diferente é um elaborado filme de animação com desenvolvimento temático adulto, utilizando bonequinhos de massa que ganham impressão de movimento pelo processo conhecido como stop-motion: cada fotograma corresponde a um quadro, devendo ser fotografados em torno de 24 quadros por segundo para dar a sensação ótica ao espectador de que os bonecos de massa estão se mexendo. Esta técnica foi utilizada nos populares A Fuga das Galinhas, Wallace e Gromit, assim como por Tim Burton em Estranho Mundo de Jack e A Noiva Cadáver. Mas o que se chamou de “temática adulta” no caso de Mary and Max (título original) deve ser entendido como algo muito mais “adulto” do que as incursões de Tim Burton, especialmente quando ele decepciona com sua Alice bem mais infantilizada do que se poderia esperar de sua carreira com atração pelo grotesco.
O primeiro longa metragem do australiano Adam Elliott confirma a atração de seu diretor por temas e personagens bizarros, mas com o diferencial de jamais perder a ternura por suas criações. No premiado com o Oscar de melhor curta de animação (disponível no YouTube
http://www.youtube.com/watch?gl=AU&hl=en-GB&v=ouyVS6HOFeo), Harvie Krumpet (2003), havia síndrome de Tourette, câncer de testículo, nudez, Alzheimer e inclinação suicida - dentre outras vicissitudes humanas. Tudo isso, concentrado em vinte minutos.
Espalhados ao longo dos 80 minutos de Mary e Max a presença de Síndrome de Asperger, alcoolismo, inclinação suicida e outros quadros disfuncionais pode se tornar mais palatável. Até porque o início engana um pouco com a personagem feminina e sua ingenuidade ainda cabível em seus oito anos (ainda que nada poéticos). O tempo mostrará que Mary não é apenas naïve pela idade: pode até desenvolver teses de mestrado, mas também pode afundar em depressão grave e comportamento disfuncional. Com Max as coisas não são mais simples: ele lembra até mesmo “fisicamente” o seu antecessor ‘Harvie Krumpet’ e também passa por diversas tentativas de atividades laborativas; aqui, as tentativas teriam que ser compatíveis com o diagnóstico de ‘Asperger’ e mais não diremos para não estragar as surpresas desconcertantes que o filme desenrola a cada momento.
Mas pode-se destacar um dos aspectos mais interessantes da estrutura narrativa do filme, que é tratar essencialmente de uma relação apenas epistolar. Existe um narrador (excelente, aliás: Barry Huphries), mas os dois personagens, ela na Austrália, ele em NY, só se comunicam através de cartas na era pré-email.
Se surge uma afinidade entre as duas distantes solidões, isso não evita rompantes e fases de afastamento doloroso para um ou/e outro correspondente. Esqueçam o afetuoso e amável 84, Charing Cross Road que teve surpreendente receptividade no Brasil com o arbitrário título Nunca te vi, sempre te amei. Os bonecos de massinha de Adam Elliott são mais humanamente contraditórios e complexos do que muitos personagens de tantos filmes artificiosos interpretados por atores de carne-e-osso.
A dublagem a cargo de Toni Colette (Mary já adulta), Bethany Withmore (Mary criança) e do sempre extraordinário Philip Seymour Hoffman (Max, em mais uma composição requintada, aqui apenas vocal) acompanham a excelência do perfil já bem definido visualmente (e pelo roteiro) dos tipos a que emprestam suas vozes. Visualmente, Mary até pode nos lembrar uma espécie de versão “não-pornô” de nossa famosa ‘Rê-Bordosa’ criada por Angeli e que também já teve seu momento de animação, ainda que menos requintada do que a deste longa que custou 5 anos de preparação incluindo 57 semanas só para a filmagem propriamente dita.
Além das possíveis idiossincrasias do diretor e roteirista (sua provável fascinação por personalidades excêntricas), a possível preocupação em se manter como um filme “adulto” de animação talvez faça, por vezes, que o enredo exagere em sua “mão pesada” de revezes da vida e humor negro. Mas não se pode dizer que não haja vidas até com mais revezes do que as de Mary e Max.
Mary e Max - Uma Amizade Diferente
"Incrível"
"Como o pascarelli62 disse, é um filme genial, sim. Mas é agoniante, parece que alcança um pedaço do seu íntimo que você deixa guardado e escondido... foi realmente um filme bem estudado e analisado, muito inteligente, profundo. Mas é terrível, uma psicologia tensa. Adorei, mas não sei se aguentaria ver de novo. Mas eu recomendo."