Um clássico filme de guerra que focaliza o lado psicológico. Apocalipse Now retorna com novas cenas.
Retorna aos cinemas a versão restaurada do clássico Apocalipse Now! com o subtítulo Redux, que significa "revisitado". É um filme sobre a loucura da guerra ambientado no conflito do Vietnã. Redux traz ainda cenas inéditas retiradas da ver ... Leia mais Um clássico filme de guerra que focaliza o lado psicológico. Apocalipse Now retorna com novas cenas.
Retorna aos cinemas a versão restaurada do clássico Apocalipse Now! com o subtítulo Redux, que significa "revisitado". É um filme sobre a loucura da guerra ambientado no conflito do Vietnã. Redux traz ainda cenas inéditas retiradas da versão original, pois na época Coppola tinha necessidade de que o filme fosse bem-sucedido comercialmente devido ao enorme prejuízo financeiro que lhe causou. Hoje, sem essa necessidade, ele nos brinda com sua visão completa da história.
Há uma polêmica sobre alterar um filme que muitos consideram uma obra-prima. Na minha opinião, essa é uma das raras versões do diretor em que as cenas deletadas acrescentam ainda mais ângulos a uma obra já complexa. Acredito que foi intenção de Coppola trazer uma visão feminina da guerra, como as garotas da Playboy que comentam seus sonhos infantis destruídos enquanto se prostituem, ou na cena da fazenda onde a mulher que não agüenta mais esperar pelo marido acaba se entregando ao Capitão Willard. Porém é certo que as novas cenas prejudicaram a fluidez do filme e essa "visão feminina" se enriquece o filme tematicamente não chega a acrescentar realmente na história.
Para quem não conhece, o filme é inspirado pelo romance "O Coração das Trevas" de Joseph Conrad, e transporta para as selvas do Cambodja a aventura do Capitão Willard, que lidera um destacamento de soldados com a missão de eliminar o Coronel Kurtz, que enlouqueceu e montou uma milícia dentro da selva, mas a jornada através do rio Nung, cheia de situações surreais e tensas acaba afetando a mente dos próprios soldados. Me impressiona como até hoje o filme é uma porrada sensorial de imagens e som, principalmente vista num cinema. A cena do bombardeio de Napalm ao som da Cavalgada das Valkírias de Wagner, a lisérgica cena do ataque à ponte, estão entre várias memoráveis. Além disso, os diálogos são excelentes, interpretados por atores fantásticos como o lendário Marlon Brando, um denso Martin Sheen, além de Robert Duvall e Dennis Hopper. Como uma curiosidade para o público de hoje, duas pontas dos então jovens Harrison Ford e Lawrence Fishburne.
Quem não puder ver no cinema, assista em vídeo, mas não deixe de ver, porque esse é um dos melhores filmes de guerra já feitos. Recomendo aos fãs que procurem o documentário "O Apocalipse de Um Cineasta" feito pela esposa de Coppola, contando os bastidores da produção. É um filme à parte. Essa foi uma produção ambiciosa e ousadíssima para a época, cheia de problemas e histórias. Você sabia que na cena em que o Willard dá um soco no espelho, o ator Martin Sheen estava realmente bêbado e se cortou de verdade? Aquele sangue que aparece no filme não é de mentirinha não! E a cena do sacrifício do boi no ritual da tribo é real também. Se fosse hoje, causaria um furor entre entidades de proteção aos animais apesar de ser na verdade um ritual verdadeiro realizado entre nativos locais... Saudades dos anos setenta.
Por Ary Monteiro Jr.
14/01/2003
Uma declaração de amor a um dos maiores filmes anti-guerra já feitos na história.
No coração de todo homem há um conflito entre o racional e o irracional, entre o bem e o mal e nem sempre é o bem que sai vencedor.
Em 1979, já um diretor consagrado, Francis Ford Coppola assumiu uma tarefa que quase tirou-lhe a sanidade. As filmagens ... Leia mais Uma declaração de amor a um dos maiores filmes anti-guerra já feitos na história.
No coração de todo homem há um conflito entre o racional e o irracional, entre o bem e o mal e nem sempre é o bem que sai vencedor.
Em 1979, já um diretor consagrado, Francis Ford Coppola assumiu uma tarefa que quase tirou-lhe a sanidade. As filmagens de Apocalypse Now foram um pesadelo, com enfarte do protagonista, furacões e outros incontáveis problemas. Mas valeu a pena, ao menos para os milhões de cinéfilos em todo o mundo. Apocalypse Now revelou-se, sim, um pesadelo, porém um pesadelo magnífico, um dos mais arrebatadores e poderosos filmes do Cinema. Mais de vinte anos depois, Coppola decidiu entrar na onda do momento e lançar sua versão definitiva para a obra, acrescentando quase 50 minutos de cenas que ficaram de fora da versão original. Eis Apocalypse Now Redux.
O exército ensina nossos jovens a matar e soltar bombas, mas os comandantes não permitem escrever “foda-se” nos aviões porque é obsceno.
Baseado na obra Heart of Darkness, de Joseph Conrad, Apocalypse Now conta a história do capitão Willard, um combatente no Vietnã que recebe uma missão especial e confidencial: encontrar e matar um homem no meio da selva vietnamita. O problema é que o homem é o coronel Walter Kurtz, um dos mais condecorados e respeitados oficiais do exército americano, que parece ter enlouquecido e formado uma própria seita onde é tratado como Deus por seus seguidores. Willard e sua equipe partem em um barco ao encontro de Kurtz e de si mesmos, enquanto presenciam os horrores e a estupidez da guerra.
Você não tem o direito de me julgar. Tem o direito de me matar, mas não de me julgar.
Apocalypse Now é normalmente tratado como um dos melhores filmes já realizados e o maior protesto anti-guerra já posto em celulóide. Isso não é mentira, mas restringi-lo a apenas essa definição chega a ser um sacrilégio. Apocalypse Now é uma jornada psicologicamente devastadora e surreal. É um complexo estudo sobre a dualidade e o conflito existente em cada ser humano. Uma análise pungente e hipnotizante sobre o frágil cordão que divide o nosso lado racional e irracional. É muito mais do que um filme sobre a estupidez da guerra, assumindo a posição de uma profunda reflexão sobre o ser humano e seus limites.
Há dois de você: aquele que mata e aquele que ama.
Dessa maneira, a viagem de Willard e sua equipe rio acima para encontrar Kurtz é uma metáfora sobre a jornada de cada pessoa para conhecer a si mesmo e compreender o sentido de sua existência em meio ao caos. Através de contornos oníricos e surreais, Apocalypse Now retrata o quão fácil é liberar o lado irracional de nosso ser, mesmo que seja através da mais desprezível forma de auto-conhecimento existente no mundo: a guerra.
Como você chama assassinos que acusam assassinos?
Com o objetivo – alcançado, diga-se de passagem – de propor tantas reflexões e análises, Coppola e o roteirista John Milius mostram inteligência ao optar por fazer de Apocalypse Now um filme de questionamentos e não de respostas. Todas as definições e idéias que fervilham na mente do espectador após as mais de três hipnóticas horas de filme saem através de nossas próprias percepções a respeito daquilo que nos é mostrado. Coppola não exige que todas as pessoas saiam com o mesmo pensamento após assistir ao filme, preferindo oferecer apenas a base necessária para o espectador realizar tais ponderações, o que os leva, conseqüentemente, a compreenderem a si mesmos. Essa é a causa principal de Apocalypse Now ser uma experiência tão emocionalmente profunda e marcante, em oposição a “apenas” um belíssimo exemplar da sétima arte.
Eu assisti uma lesma rastejar pela lâmina de uma navalha e sobreviver. Esse é meu sonho. Rastejar pela lâmina de uma navalha e sobreviver.
Toda essa inteligência de Coppola e Milius pode ser percebida nas frases e diálogos inesquecíveis que entraram para a história do cinema – como aqueles que permeiam esse texto – e na maneira com que deixam espaço para as reflexões do espectador. Dessa forma, o público passa o filme inteiro procurando suas próprias respostas para questões como: Kurtz é louco como os oficiais afirmam ou apenas atingiu um nível de compreensão sobre tudo o que o cerca que ameaça os superiores? Qual o verdadeiro sentido da viagem que a equipe de Willard faz? O quanto diferente deles próprios é Kurtz? Se Willard sabe – e acredito que ele saiba desde o início – que está entrando em uma viagem sem retorno, o que o motiva a seguir adiante? Qual a razão de todo o caos em que se encontram envolvidos?
Eu estava indo para o pior lugar do mundo e não sabia.
A versão original de Apocalypse Now era muito mais focada na compreensão da personalidade de Kurtz, procurando mostrar o receio de Willard em gradativamente se transformar no próprio homem que persegue à medida em que o compreende melhor. Em Redux, a experiência de assistir ao filme é muito mais rica, pois, além de contar com a trama sobre Kurtz, a visão agora é muito mais ampla, adquirindo contornos políticos e analisando a hipocrisia do governo americano e o papel dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã. Por exemplo, em um momento que não aparecia na versão original, um homem diz a Willard: “Vocês estão lutando pelo maior nada da História”. É mais uma camada que se acrescenta à já magnífica história e que termina por engrandecer o filme.
Um dia esta guerra vai acabar. Para os garotos do barco, está bom. Eles não querem nada mais do que encontrar um caminho para casa. O problema é que eu já voltei e sei que aquele lugar não existe mais.
Um aspecto que é praticamente impossível de acreditar é como, mesmo com uma produção tão tumultuada, Coppola conseguiu a façanha de criar alguns dos momentos mais memoráveis já vistos em qualquer tela de cinema em qualquer lugar do mundo. O encontro de Kurtz e Willard, que em Redux ocupa quase uma hora, é o mais próximo que o Cinema já chegou de se transformar em poesia. As cenas possuem um lirismo, tanto visual quanto textualmente, que transcendem a definição de cinema que todos conhecemos, dirigindo-se a um ponto obscuro e adormecido na mente de cada espectador.
Nós os cortávamos ao meio e depois dávamos um band-aid. Foi a maneira que encontramos de viver com nós mesmos.
O mesmo pode ser dito da cena de abertura do filme, uma das mais famosas de toda a história, com helicópteros entrando e saindo de quadro enquanto uma floresta é destruída, ao som de The End do grupo The Doors, ditando o tom para o que será o resto de Apocalypse Now. Dentre outras várias, é impossível deixar de citar a majestosa seqüência do ataque a uma aldeia vietnamita com os helicópteros dançando ao som de A Cavalgada das Valquírias, de Wagner. Simplesmente de tirar o fôlego.
- Você é um assassino?
- Sou um soldado.
- Não é nenhum dos dois. É apenas um mensageiro, enviado para coletar uma dívida.
Contando com atuações irrepreensíveis de todo o elenco, além da magnética presença de Marlon Brando, Apocalypse Now e, principalmente, Apocalypse Now Redux são obras praticamente indefiníveis, já que não ouso chamá-los meramente de filmes, pois acredito que seria diminuir seu imenso valor e alcance. Coppola realizou, além do maior libelo anti-guerra de todos os tempos, uma das experiências cinematográficas mais arrebatadoras que jamais teremos a chance de acompanhar. E foi de sua mente que saiu a idéia e a concepção da cena onde um dos maiores atores que o cinema já conheceu define, com apenas quatro palavras, tudo aquilo que é a guerra:
O horror, o horror.
Por Silvio Pilau
11/09/2006
Apocalypse Now
"Bom"
"Excelente... lamento apenas o Marlon Brando aparecer tão pouco."