A partir do momento em que as animações apresentam-se como personificação não só do nosso mundo, mas também de nossos anseios, frustrações, satisfações, o espectador se sujeita ao moralismo metafórico, algo que, neste caso, não deve ser interpretado de maneira pejorativa. De fato, as produções animadas possuem uma importante e valios ... Leia mais A partir do momento em que as animações apresentam-se como personificação não só do nosso mundo, mas também de nossos anseios, frustrações, satisfações, o espectador se sujeita ao moralismo metafórico, algo que, neste caso, não deve ser interpretado de maneira pejorativa. De fato, as produções animadas possuem uma importante e valiosa preocupação na concepção e transmissão de valores comportamentais. Há, porém, uma vertente de filmes que atenuam – e não extinguem – a condição. E, por adotar tal postura, o grande mérito de A Era do Gelo 3 acaba sendo a sua despretenção assumida acompanhada de uma comicidade divertida.
O aspecto cômico, constante da produção, irá surgir diretamente de mais uma jornada do bando formado pelos mamutes Manny e Ellie, o tigre Diego, a preguiça Sid e os gambás Eddie e Crash. Enquanto no primeiro filme tínhamos a busca dos animais pelos humanos e no segundo a fuga de uma inundação, neste a peripécia se concentra na procura por Sid que, após se apossar de três ovos de dinossauro com o intuito de ter uma família, acaba sendo raptado e levado para um universo subterrâneo habitado por criaturas jurássicas que deveriam se encontrar, supostamente, extintas. Obviamente, o humor é consequência dos fatores proporcionados pela aventura, pelas atitudes dos personagens e, na maioria das vezes, por elementos externos.
Aliás, o humor, em si, possui diversas vertentes. É instigante averiguar que, independente deste ser ingênuo, irreverente, pastelão, inteligente e até adulto, a produção tenta agradar a todos os tipos de espectadores. E esta junção de variadas esquetes cômicas de divergentes funções promove diversas sequências hilariantes e divertidas. A comicidade corporal – mais ingênua, por exemplo – é utilizada em abundância, assim como a troca de diálogos e situações de exclusivo entendimento por parte do público juvenil e adulto. As deliciosas homenagens e referências ao cinema – como Apocalypse Now de Francis Ford Coppola – e à cultura pop – The Flintstones e a clássica canção “You will never find another Love Like Mine” de Lou Rawls - também marcam presença, mesmo que em menor quantidade. A apropriação destas variantes humorísticas em conjunto resulta em um equilíbrio, o que contribui para a não repetitividade.
Todavia, apesar do roteiro se revelar eficaz graças às diversas abordagens cômicas, a trama apresenta algumas ressalvas perante o seu desenrolar. Fãs da preguiça Sid poderão não se contentar tão facilmente já que o tempo em tela do personagem é radicalmente reduzido em comparação aos outros filmes da série. A tentativa de desenvolvimento psicológico de novos personagens não se mostra eficiente, o que justifica a falta de interesse por parte do público em alguns deles como, por exemplo, a doninha Buck. Os gambás Eddie e Crash, os personagens mais escrachados e exagerados, ganham mais diálogos e sequências porém, não transmitem o carisma e diversão do melhor personagem da animação, o próprio Sid. O esquilo Scratch, por sua vez, protagoniza momentos mais curtos e menos inspirados que nos anteriores.
Se há apenas alguns empecilhos no roteiro, a técnica compensa, apresentando um perfeccionismo sem igual. O diretor brasileiro Carlos Saldanha – que iniciou como co-diretor do primeiro longa e passou a dirigir o segundo – e a sua equipe da Blue Sky Productions impressionam no rico detalhismo que enfeita a produção. Algo que me agrada bastante na franquia é a estilização característica acompanhada da incrível ambientação e do minucioso trabalho de composição dos personagens. A experiência se torna ainda mais gratificante em 3D, projeção que será exibida em boa parte do país. A interação entre os personagens e a profundidade de campo e os efeitos de textura proporcionada pela tecnologia é divertidíssima, compensando o valor mais caro que o ingresso convencional. Graças a sua competência, o brasileiro Carlos Saldanha já é referência para a indústria cinematográfica hollywoodiana, o que deve incentivar o público brasileiro na ida aos cinemas.
Atualmente, nota-se uma dificuldade dos blockbusters live-action para se firmar perante o público e a crítica. O exagero, a pretensão, a repetição e a megalomania acabam por transformar algo que deveria ser um entretenimento saudável em um divertimento caracterizado pela monotonia e pelo “lugar comum”. As animações, por sua vez, surgem para inovar e propor novos conceitos, resultando em experiências muito mais válidas e agradáveis. Justamente, devido a sua despretensão, aos valores sociais e comportamentais contidos mas presentes, e à fácil comunicação com o público infantil e adulto, A Era do Gelo 3 comprova e reforça o carisma dos longas-metragens anteriores, posicionando-se em um mesmo patamar. Diante o colapso criativo, produções de tais conjunturas se destacam e confirmam que, realmente, adentramos na Era das Animações. É um prazer.
Por Henrique Chirichella
Engrena com o tranco
"A Era do Gelo 3" ("Ice Age: Dawn of the dinosaurs") só engrena quando o bicho de tapa-olho aí do lado aparece. Até sua chegada, o esforço do mamute Manny, da preguiça Sid e do tigre-de-dente-de-sabre Diego para proteger seu bando num território cheio de répteis gigantes esbanja fofura, porém carece de humor e de exu ... Leia mais Engrena com o tranco
"A Era do Gelo 3" ("Ice Age: Dawn of the dinosaurs") só engrena quando o bicho de tapa-olho aí do lado aparece. Até sua chegada, o esforço do mamute Manny, da preguiça Sid e do tigre-de-dente-de-sabre Diego para proteger seu bando num território cheio de répteis gigantes esbanja fofura, porém carece de humor e de exuberância nos traços. Mas depois que a doninha Buck ganha a tela, o riso é certo. E farto. Mais farto na versão brasileira do filme, pilotado pelo carioca Carlos Saldanha, codirigido por Mike Thurmeier.
Na dublagem lá de fora, Buck conta com a histeria inglesa de Simon Pegg, o engenheiro Scott do novo (e precioso) "Star trek". No Brasil- e aqui, as cópias em 3-D, que realçam a concepção gráfica de Saldanha e sua equipe, são todas dubladas- o personagem recebe a voz de um talentoso ator cujo rosto não se conhece: Alexandre Moreno. Moreno dá polimento às pedras lascadas de um roteiro um tanto sonolento no começo, ganhando ritmo com as viradas da trama.
"A era do gelo 3" abre como uma crónica de costumes familiares, explorando as paranoias e as insatisfacões do cotidiano em clã. Com a aparição de dinossauros, que coincide com a entrada de Buck, adrenalina e gargalhada brotam. Até o visual é incrementado, atestando o esmero formal de Saldanha. Mais do que criar uma franquia de sucesso, o animador brasileiro desenvolveu um universo de tipos únicos. E com o reforço da recém-chegada doninha caolha, sua fauna se imortaliza.
Rodrigo Fonseca (03/07/2009)
A terceira aventura da série recicla o que já vinha sendo reciclado, e finalmente começa a cansar.
Ao insistir em uma mesma fórmula pela segunda vez consecutiva (uma fórmula que, convenhamos, já nasceu repetida), o diretor Carlos Saldanha e os roteiristas Michael Berg e Peter Ackerman obviamente não pensavam em atingir novos limites com e ... Leia mais A terceira aventura da série recicla o que já vinha sendo reciclado, e finalmente começa a cansar.
Ao insistir em uma mesma fórmula pela segunda vez consecutiva (uma fórmula que, convenhamos, já nasceu repetida), o diretor Carlos Saldanha e os roteiristas Michael Berg e Peter Ackerman obviamente não pensavam em atingir novos limites com esta segunda sequência de A Era do Gelo. O que eles e a Fox queriam era só um faturamento grandioso, para deixar a todos (eles) um pouco mais ricos. Então, pouco importava se o resultado final saísse medíocre. Pois é o que acabou acontecendo. Este aqui é o mesmo filme que já assistimos duas vezes e, se antes havia uma sensação de diversão pura proporcionada pela simplicidade de um roteiro e personagens cativantes, isso não resiste a mais uma visitação, pois "O Despertar dos Dinossauros" parece ser mesmo um capítulo do desenho feito para a televisão. Só que muito bem produzido.
Todos os personagens estão de volta, e as vozes são as mesmas (o que quer dizer que a versão dublada vem com os mesmos sotaques regionalistas que certamente não agradarão a todos). Agora Sid encontra três bebês dinossauros construídos em uma aparência adorável, quase ridiculamente adorável, que clama pelo “ooooooohh” de seu público. E a turma toda vai parar em um vale rico em fauna e flora, sob o solo congelado (não há referências ao degelo visto no segundo filme, mais uma prova do descuido da produção), onde há um mundo novo e excitante de dinossauros, fazendo-nos sentir em uma versão infantilizada de Jurassic Park. A mesma estrutura narrativa do primeiro filme é utilizada: nossos heróis devem atravessar um vale lotado de perigos para, desta vez, resgatarem Sid.
O filme tem aquele cacoete irritante de ter cenas gratuitas feitas para os cinemas 3D – uma moda que veio para ficar, felizmente e infelizmente. Você verá um bocado de planos em primeira pessoa e outros vai-e-vens de câmera que não existiam antes. Claro que este é um pormenor, mas serve para ilustrar novamente o fato do filme ser feito não em cima do roteiro, mas sim da necessidade dos produtores faturarem mais dinheiro. Em relação ao visual, se no primeiro filme da série era simplista e quase aborrecido (o que pelo menos pouco atrapalhou na qualidade da obra), e se no segundo ele continou simplista, mas ganhou gracejos técnicos impressionantes, agora, apresar de não ocorrer a mesma evolução de antes, visualmente não deixa de ser um filme rico que, no mínimo, não faz feio perto dos concorrentes óbvios – Pixar e DreamWorks.
Há, novamente, várias referências sutis (e outras nem tanto) a filmes famosos e/ou clássicos, que o grande público não notará, mas que servem para trazer um pouco de diversão a quem conhece cinema, espectadores mais propensos a se entediarem com a fórmula desgastada. Em entrevista, o diretor Saldanha disse que foi seu último filme frente à série, pelo menos como diretor. Ele acha que o ciclo dos personagens fechou e, se for feito um quarto filme, deve haver uma renovação na série. Será mesmo? Todos os elementos que agradaram o público e trouxeram arrecadações de blockbuster (sobretudo ao segundo filme) estão de volta em um nível maior. O próprio esquilo Scrat ganhou um tratamento muito melhor, quase um filme dentro do filme e, apesar de suas piadas serem sempre óbvias, é difícil não abrir um pequeno sorriso aqui e acolá. Já os outros personagens têm suas personalidades virtualmente idênticas aos filmes anteriores. Os conflitos pelos quais passam não são suficientes para fortalecê-los e dar-lhes uma nova dimensão, algo já esperado.
A utilização dos dinossauros traz um tom mais grandioso à aventura, sem dúvida, e ver o T-Rex (e o gigantão no dispensável duelo final) é deveras divertido, mas a riqueza do roteiro está na interação entre os amigos, que passam por dúvidas e questionamentos pertinentes e válidos para as crianças. Apesar de muitos falarem que há conteúdo adulto nas entrelinhas – uma justificativa frágil para tentar levar alguns marmanjos a mais ao cinema – o filme é feito basicamente para os infantes, e pode ser recomendado a eles sem restrições, pois não lhes interessa a qualidade da obra como cinema. Já para quem procura algum conteúdo a mais e não é especialmente fã dos filmes anteriores, pode muito bem dispensar esta pequena grande aventura feita para preencher duas horas do público durante as férias escolares, e esperar o final da temporada para procurar vida mais interessante nos cinemas.
Por Alexandre Koball
11/07/2009
A Era do Gelo 3
"Bom_mais"
"Mais uma bem produzida continuação do filme.
Muito bom para o gênero"