Brasil CineZen Cultural - Carlos Cirne “J. Edgar”
Uma das figuras mais poderosas, controversas e enigmáticas do século 20.
Controvérsias à parte, há que se admitir alguns pontos inegáveis na biografia de J. Edgar Hoover: desenvolveu o que hoje é o sistema bibliográfico da Biblioteca do Congresso Americano; aperfeiçoou e tornou realidade o registro datiloscópico individ ... Leia mais “J. Edgar”
Uma das figuras mais poderosas, controversas e enigmáticas do século 20.
Controvérsias à parte, há que se admitir alguns pontos inegáveis na biografia de J. Edgar Hoover: desenvolveu o que hoje é o sistema bibliográfico da Biblioteca do Congresso Americano; aperfeiçoou e tornou realidade o registro datiloscópico individual (catalogação de impressões digitais); e transformou a medicina forense numa arte (ao que agradecem todos os CSI da vida). Ou seja, mesmo sendo um Richelieu da onipresença norte-americana por quase 50 anos, era um grande empreendedor, que acreditava que “informação é poder”. E isso ele amealhou bastante, transformando-se numa espécie de figura intocável na direção do FBI (também criado por ele).
Filho único, de mãe castradora (no filme, Dame Judy Dench, impecável) e pai ausente, a exemplo de tantos outros déspotas, J. Edgar canalizou sua energia para o trabalho, chegando a transformar um pequeno flerte - que não resultou em casamento, como pretendia - numa de suas parcerias para a vida toda: Helen Gandy (Naomi Watts, desperdiçada), não aceitou casar-se com ele, mas transformou na secretária fiel que acaba (segundo o filme) sendo a guardiã de seus tão temidos dossiês pessoais, sobre tudo e todos, devidamente destruídos quando de sua morte. O que continham, para alívio de muitos, nunca se soube. Mas não era pouco, visto sua total imunidade no cenário político norte-americano.
Criança com problemas de fala e sociabilidade, transforma-se no jovem adulto atento a tudo a seu redor, identificando oportunidades de desenvolvimento profissional, onde outros nem sequer imaginariam. E, na formação de seu staff, para composição do que viria a se tornar o FBI, é que conhece aquele que viria a se transformaria em seu braço direito e, segundo muitos, seu único verdadeiro amor, e companheiro de toda a vida: Clyde Tolson, vivido no filme por Armie Hammer (os gêmeos de “A Rede Social”).
O filme de Clint Eastwood, dirigido com a sobriedade costumeira do diretor, apresenta um J. Edgar passional, focado em seus objetivos, e que não se reserva o direito de uma mínima concessão em sua vida pessoal: é emblemática a cena de seu ataque de pânico quando, num jantar, começa a ser assediado pela mão da atriz Ginger Rogers, e praticamente ejeta da cadeira no restaurante, batendo em retirada rapidamente ante a possibilidade de ter que dançar com ela, seguido por um apaixonado e perplexo Tolson.
Neste ponto, talvez a sobriedade de Eastwood acabe distanciando o espectador, na medida em que os poucos arroubos de paixão no filme acabem sempre ficando a cargo do afável e muito elegante Tolson, restando a Hoover as tradicionais cenas de catarse como, por exemplo, na morte da mãe, onde DiCaprio consegue um desempenho um pouco além de sua tradicional voz meio esganiçada e cara de pós-adolescente gordinho.
E, o que deveria ser um ponto de extremo cuidado na produção, acaba sendo um fator de grande ruído no geral do filme: a maquiagem de envelhecimento, fundamental num filme que percorre mais de 30 anos de história, funciona à perfeição para DiCaprio e, inversamente proporcional, é um desastre quando aplicada a Hammer. A aparência de borracha retira totalmente qualquer expressão do jovem ator, tornando difícil enxergar-se a pessoa por trás da máscara.
De qualquer maneira, um filme muito bem realizado, com excelente design de produção, apenas um pouco frio, distante. Como deve ter sido, talvez, o próprio J. Edgar, em vida.
Fonte: CineZen Cultural - Carlos Cirne